Capela Sistina: O Triunfo de Michelangelo Buonarroti no Vaticano
A Capela Sistina foi erguida pelo Papa Sisto IV, no ano de 1470, como uma das muitas obras empreendidas com o objetivo de restaurar Roma, depois que o papado mudou-se para lá, vindo de Avignon. Mede cerca de quarenta metros de comprimento por quatorze de largura, é sem dúvida uma das maiores atrações de turistas quando visitam Roma.
Localizada no Vaticano, as pinturas de Michelangelo Buonarroti são consideradas o maior tesouro que a história da arte possui, também um dos maiores feitos em pinturas do mundo – as pinturas do teto e em seguida, quase trinta anos depois, a do Juízo Final que está localizada na parede do altar da capela. Além das pinturas de Michelangelo, a capela possui pinturas em todas as suas paredes laterais feitas por vários importantes artistas do final do século XV, como Sandro Botticelli, Domenico Ghirlandaio e Pietro Perugino. Todo o conjunto de pinturas ilustra diversas passagens da Bíblia.
Além de Michelangelo: As Paredes Laterais
Embora o teto atraia todos os olhares, a Capela Sistina já era uma galeria de mestre antes de Michelangelo subir nos andaimes. Nas paredes laterais, nomes como Botticelli, Perugino e Ghirlandaio narraram as vidas de Moisés e de Cristo. É um diálogo fascinante entre a delicadeza do início do Renascimento e a força monumental que viria a seguir, transformando o espaço em um verdadeiro compêndio da melhor pintura italiana do século XV.

A pintura do teto da Capela Sistina, é sem dúvida uma das maiores obras de arte já realizadas. Sozinha já seria o suficiente para eternizar o nome de Michelangelo, como um gigante entre todos os artistas. O tamanho da obra é de tirar o fôlego. O impacto é indescritível, ainda mais quando sabemos que foi realizada por esse grande mestre da renascença italiana, praticamente sem ajuda, ao longo de quatro anos. Não surpreende que ele era conhecido por seus contemporâneos como ‘O Divino’.
O Esforço Físico do Gênio
Esqueça a imagem romântica de Michelangelo pintando deitado confortavelmente. O artista trabalhou por quatro anos de pé, com o pescoço tensionado para trás e os braços erguidos. A tinta gotejava constantemente sobre seu rosto, afetando sua visão por meses. Em um de seus poemas, ele chegou a brincar com o próprio sacrifício, dizendo que seu corpo havia se transformado em um “arco de luto” para dar vida às figuras do teto.
Há diferentes interpretações sobre os afrescos do teto. É provável que a maior parte tenha sido composta baseada na decoração que já existia lá, quando Michelangelo deu início ao seu trabalho. O artista assinou seu contrato com o Papa Júlio II, em 10 de maio de 1508. Receberia um pagamento de 3.000 ducados que foi rapidamente dobrado. O trabalho começou em julho de 1508 e continuou até 1510, quando o artista viajou para Bolonha, aparentemente para persuadir o papa a lhe fornecer mais dinheiro. A Vida de Michelangelo, de Giorgio Vasari, conta que um dia o papa, impaciente, perguntou quando ele terminaria, ao que Michelangelo replicou: “Quando conseguir acabar!“. Enfurecido, o papa ameaçou: “Quer que eu o atire fora do andaime neste instante?”. O teto foi finalmente concluído em 1512. A carta de Michelangelo datada dessa época, relembra: “Terminei a capela que estava pintando; o papa está muito satisfeito. Quanto aos demais problemas, não estão caminhando como eu desejava, mas estes tempos são muito desfavoráveis para nossa arte”.
Os afrescos cobrem aproximadamente 520 metros quadrados do teto de abóbada semicilíndrica da construção em formato de celeiro da Capela, que fica junto ao Museu do Vaticano. Antes de iniciar a pintura, o artista fazia esboços que eram passados para folha de papel em tamanho natural. Para que o gesso pudesse ser pintado com precisão, ele fazia o contorno dos desenhos com estiletes de ferro, que marcavam o gesso fresco. Muitas das cerca de 400 figuras pintadas no teto, chegam a medir três metros de altura. Esse conjunto descreve cenas da epopeia humana segundo a tradição cristã.

As divindades ganharam corpo, sentimento e expressão humanos por meio dos pincéis de Michelangelo. A cena em que Deus separa a luz das trevas é traduzida com tanta realidade que fica a impressão de que o Pai está mais próximo dos olhos dos espectadores do que a realidade. Michelangelo foi capaz, com seu trabalho perfeccionista, criar um efeito de alto relevo nas suas pinturas que permitem essa sensação.

O Segredo da Anatomia de Adão
A cena mais famosa da Capela Sistina esconde um detalhe que fascina médicos e historiadores: o manto que envolve a figura de Deus possui um contorno idêntico ao de um cérebro humano em corte sagital. Michelangelo, que dissecava cadáveres para entender a musculatura, teria deixado ali uma assinatura intelectual, sugerindo que o “toque divino” de Deus ao homem foi, na verdade, o dom da inteligência e da consciência.
A área central do teto é formada por nove painéis que mostram cenas do Velho Testamento da Bíblia: três sobre a Criação, três sobre Adão e Eva e três sobre a História de Noé. Esses painéis são ladeados pelas figuras das Sibilas (profetisas da mitologia grega) e de profetas hebreus. os desenhos são intercalados por figuras atléticas masculinas que seguram medalhões de bronze que servem também para ligar as histórias cristãs à Antiguidade Clássica.
O JUÍZO FINAL
Após enfrentar muitas dificuldades durante quatro longos anos dedicados à pintura do teto, entre 1508 e 1512, Michelangelo volta em 1536 para realizar outra obra na parede do altar, Juízo Final, terminada apenas em 1541. Michelangelo recebeu essa encomenda, dizem que ele não queria aceitar, e chegou a pensar que se livraria da tarefa quando o Papa Clemente morreu, logo depois. Contudo o novo Papa, Paulo III, renovou o convite. E quando Michelangelo tentou recusar, alegando que tinha outro trabalho, Paulo III disse:
“Por trinta anos desejei tê-lo a meu serviço, agora que sou Papa, não vou ter esse desejo satisfeito?”
Dizem que o Papa ao ver o resultado da obra, atirou-se ao chão gritando: “Deus, perdoe meus pecados quando o Juízo chegar.”

Inspirado no poema Inferno de Dante Alighieri, de quem o artista era especial admirador, e no hino latino Dies Irae ( Dia de Ira), Michelangelo mostra, por meio de enormes figuras humanas, misturadas de forma sufocante, a realidade da morte e do medo.
No centro desse amontoado de corpos, encontra-se um Cristo jovem e atlético – com a de Maria por trás que evita o olhar ao redor para não presenciar a execução dos castigos – sustenta a mão no alto, como se estivesse erguendo os mortos, convocando-os para a hora do julgamento. Cristo está cercado pelos santos que proclamam tudo o que sofreram e pedem sua recompensa. As figuras erguendo-se dos túmulos, à direita de Cristo, intimadas pelo toque das trombetas dos anjos. Os condenados caem no inferno, à esquerda. O mitológico Caronte os conduz em seu barco através do Rio Sryx.
De certa maneira, a ascensão protestante e a contra reforma mudaram a confiança inabalável do artista nos princípios humanistas, o que ele tão bem demonstrou na tensão apocalíptica do Juízo Final.
CURIOSIDADES

Baigio da Cesena foi o mestre de cerimônias do Papa Paulo III, que ficava criticando e instigando ao Papa, todo o tempo as representações de Michelangelo de figuras nuas, dizendo que elas seriam mais apropriadas para uma “taverna pública” do que a Capela Sistina. Então Michelangelo, para vingar-se, pintou-o em cena envolto por uma serpente, uma víbora mordendo seus órgãos genitais, prestes a serem lançados no segundo Círculo do Inferno. Quando Cesena protestou, o Papa Paulo III (Deus o abençoe) respondeu a Cesena: “Eu não tenho jurisdição sobre o Inferno”.
Para localizá-lo na pintura, é a última figura no canto direito que está queimando até hoje no inferno do Juízo Final de Michelangelo.
Autorretrato
Michelangelo pintou a si próprio como São Bartolomeu, montado numa nuvem, acima e à direita da figura central do jovem Cristo. Todos os santos seguram um objeto simbolizando seu martírio. Ele segura sua pele esfolada, talvez como uma brincadeira, algo macabro sobre seus esforços em benefício da arte

A Capela Hoje: O Conclave
Muito além de um museu, a Capela Sistina mantém sua função sagrada e política até os dias atuais. É entre as paredes pintadas por Michelangelo que os cardeais se reúnem em absoluto segredo para o Conclave. Quando a fumaça branca sobe pela chaminé instalada temporariamente no telhado, o mundo sabe que um novo Papa foi escolhido, reafirmando que a obra de arte mais famosa do mundo ainda é um cenário vivo de decisões que moldam a história.
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