
Paul Gauguin: A Jornada ao Taiti, Legado e Obras Essenciais (Parte 2)
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Índice do Artigo
"Antes de morrer, coloco aqui toda a minha energia, numa paixão cheia de sofrimento, e numa visão tão clara e sem correções, que a maturidade precoce desaparece e a vida floresce."
Gauguin morreu sozinho em sua casa do prazer.
(Sem Penalidade CLS)
Ele faleceu no dia 08 de maio de 1903.
Seu corpo permanece sepultado na Ilha Hiva Oa.
A Família Desfeita: O Preço da Arte de Gauguin

A decisão de Paul Gauguin de se tornar artista o levou a uma vida de intensas viagens.
Essa compulsão, no entanto, resultou no gradual afastamento de sua esposa e de toda a sua família.
Seu filho mais velho, Emil, relatou sobre a mãe: “Ela concordou em deixá-lo ir, não porque acreditasse que ele se tornaria um gênio, mas porque respeitava sua paixão pela arte."
"Foi um ato de coragem por parte de minha mãe", continuou Emil. "Isso significava que ela deveria assumir o ônus de nos manter e educar, a mim e aos meus irmãos, que ainda éramos crianças.”
Apesar de separados por dezoito anos, Paul e Mette-Sophie nunca se divorciaram oficialmente.
Eles mantiveram correspondência regular até o ano de 1897.
Com sua esposa oficial, Mette-Sophie, Gauguin teve cinco filhos: quatro homens e uma mulher.
Lamentavelmente, Gauguin sobreviveu a dois deles, uma tragédia pessoal que o marcou profundamente.
Sua filha Aline morreu de pneumonia, e seu filho Clovis faleceu devido a uma infecção no sangue após um procedimento cirúrgico.
Emile, seu outro filho, seguiu uma carreira como engenheiro de construção nos Estados Unidos, onde está sepultado, na Flórida.
Jean Rene, que também herdou o talento artístico do pai, tornou-se um escultor reconhecido, falecendo em Copenhague em 21 de abril de 1961.
Já Paul Rollon, mais conhecido como Pola, dedicou-se à crítica de arte e deixou um legado importante com o livro de memórias Meu pai, Paul Gauguin, publicado em 1937.
Mette-Sophie foi uma peça fundamental na promoção do trabalho de Gauguin.
Ela organizou diversas exposições e foi responsável pela venda de muitas de suas obras.
Muitos dos trabalhos expostos pertenceram a ela ou passaram por suas mãos em algum momento.
Mette-Sophie faleceu na Dinamarca em 25 de setembro de 1920.
Tekha'amana, um capítulo à parte

No Taiti, Gauguin conheceu Tekha'amana, e ficou completamente cativado pela linda nativa.
Ele passou a chamá-la carinhosamente de Tehura.
O casal se casou seguindo as leis locais da Ilha, onde a união poderia ser rescindida unilateralmente, tanto pelo marido quanto pela esposa.
Os nativos, inclusive, costumavam considerar esses casamentos um fenômeno temporário.
Isso permitia que, a qualquer momento, eles pudessem retornar às casas de seus pais ou encontrar um novo companheiro entre os visitantes ou pessoas do local.
Curiosamente, conforme as tradições locais, Tekha'amana tinha dois pares de pais: biológicos e adotivos.
Gauguin precisou se apresentar e pedir autorização a ambos os pais de Tehura para o casamento.
Essa peculiaridade pode ser percebida na pintura "Os Antepassados de Tekha'amana", onde ele registrou a complexidade da linhagem da sua amada, com Tehura tendo muitos "pais".
Tehura era implicitamente obediente a todos os desejos do artista.
Ela era tolerante e, o mais importante, diferente de qualquer mulher que Gauguin conhecera antes.
Talvez tenha sido esse exotismo que se tornou a característica mais atraente de Tehura para o pintor.
Certamente, ele estava apaixonado por sua "ninfa" taitiana.
Por algum tempo, ela se tornou sua musa inspiradora, a personificação de seu sonho de uma esposa humilde e apaixonada.
Ele escrevia sobre ela com entusiasmo, ouvia-a recontar lendas locais e desfrutava de sua beleza e trepidação juvenil.
Logo, ela deu à luz um filho dele.
Mas a história guarda um detalhe bizarro:
Por um curto período, Gauguin precisou viajar para Paris para tentar vender suas pinturas.
Ao retornar ao Taiti e à sua Tehura, ela se recusou a aceitá-lo, rejeitando todos os seus presentes.
No entanto, o artista sofreu por pouco tempo com essa rejeição.
Ele logo se consolou nos braços de outras morenas exóticas, seguindo o padrão que o afastara da primeira família.
Acredita-se que Gauguin tenha se casado com outras nativas e, com elas, tido mais três filhos.
O Legado Duradouro de Gauguin: Influência na Arte Moderna
O legado de Gauguin reside, em parte, em sua decisão radical de rejeitar o materialismo da cultura contemporânea.
Ele optou por um estilo de vida mais espiritual e sem as restrições impostas pela sociedade da época.
Sua importância também se encontra em sua incansável experimentação artística.
Estudiosos há muito o identificam com uma série de movimentos.
Seu trabalho tardio, em particular, atesta a singularidade de sua visão artística.
Juntamente com a obra de seus grandes contemporâneos, como Paul Cézanne e Vincent van Gogh, as inovações de Gauguin inspiraram uma geração inteira de artistas.
Entre os anos de 1889 e 1890, muitos jovens seguidores que se reuniram em Pont-Aven utilizaram as ideias de Gauguin.
A partir daí, eles formaram o influente Grupo Nabis.
Os pintores fauvistas, em especial Henri Matisse, foram profundamente inspirados por sua obra.
Matisse, por exemplo, explorou o uso ousado da cor em suas composições, uma clara influência de Gauguin.
Na Alemanha, a influência de Gauguin foi notável no trabalho de expressionistas como Ernst Ludwig Kirchner.
O uso que Gauguin fazia da iconografia oceânica e suas simplificações estilísticas afetaram profundamente Pablo Picasso.
Isso inspirou a própria apreciação de Picasso pela arte africana, contribuindo diretamente para a evolução do Cubismo.
Dessa forma, através de seus avanços estilísticos e da rejeição da representação empírica em favor da representação conceitual, Gauguin abriu portas cruciais para o desenvolvimento da arte do século XX.
Paul Gauguin: OBRAS CITADAS

Em Paisagem em Viroflay, de 1876, Gauguin explora os primeiros traços de sua sensibilidade, com pinceladas que evocam a atmosfera da cena.
Esta obra, ainda próxima do Impressionismo, mostra sua busca por uma linguagem pessoal, focando na luz e na cor.

Vegetação Tropical (1887) revela a fascinação inicial de Gauguin pelos cenários exóticos.
A tela apresenta cores vibrantes e formas luxuriantes, prenunciando sua futura imersão na cultura taitiana e na exploração do simbolismo.

Em A Beira Mar (1887), Gauguin transporta o espectador para um cenário litorâneo com uma paleta de cores fortes e contornos definidos.
Esta obra já sinaliza sua transição do Impressionismo para uma abordagem mais pessoal, onde a realidade é interpretada e não apenas reproduzida.

Visão depois do Sermão, ou A Luta de Jacó com o Anjo (1888), é uma obra seminal que marca a virada de Gauguin para o Sintetismo.
Nela, o artista rompe com a representação naturalista, utilizando cores não descritivas e um plano de fundo vermelho intenso para expressar a experiência espiritual e visionária das mulheres bretãs após o sermão.
Velhas Mulheres de Arles retrata um grupo de mulheres que se deslocam por uma paisagem.
A cena é composta com uma perspectiva achatada e arbitrariamente concebida, criando uma procissão solene.


Em O Cristo Amarelo (1889), Gauguin funde a fé cristã com o cenário rural da Bretanha.
A figura de Cristo, pintada em um amarelo intenso, reflete sua busca por uma espiritualidade primitiva e uma simplificação das formas, longe dos padrões acadêmicos.

Miti de Fatata Te (ou By the Sea), de 1892, transporta o observador diretamente para as praias do Taiti.
A obra é marcada pela tranquilidade da paisagem e pelas cores vibrantes, capturando a essência da vida simples e harmoniosa que Gauguin buscava no Pacífico.

Em Manao Tupapau (1892), Gauguin explora o tema do medo e da espiritualidade taitiana.
A obra retrata uma jovem nativa deitada, com uma figura espectral ao fundo, sugerindo a presença de um espírito noturno, capturando a atmosfera mística da ilha.

Os Antepassados de Tekha’amana (1893) é uma pintura significativa que conecta a musa taitiana de Gauguin à sua complexa ancestralidade.
A obra reforça a narrativa de que Tekha'amana tinha múltiplos pais, sejam biológicos ou adotivos, um aspecto que fascinava o artista.
De onde viemos? Quem somos? Aonde vamos? Uma questão existencial transformada em arte, uma das mais profundas de Gauguin.
O próprio artista afirmou que, depois de realizar esta pintura, ele tentou o suicídio.
Verdade ou não, a realidade é que meses antes de criar essa obra-prima, sua vida pessoal desmoronava.
As coisas correram tão mal que tudo previa um fim trágico para o pintor.
Gauguin passava por um período de perdas avassaladoras: estava financeiramente falido, enfrentava a separação de sua esposa e lamentava a morte de sua filha amada.
Esta não é simplesmente a obra mais colossal que Gauguin pintou em sua carreira (medindo 139 x 375 cm).
Ela também desenvolve por completo a doutrina filosófica e pictórica do artista, sendo um forte reflexo de sua visão de mundo.
Com um formato marcadamente horizontal, a tela segue uma evolução cronológica inversa, o que é fascinante.
Ela começa na extrema esquerda com a figura desolada de uma múmia que, em posição fetal, tapa os ouvidos, como se tentasse permanecer alheia a toda a cena.
Enquanto isso, na extrema direita, um bebê, símbolo de inocência e vida, é cuidado por três jovens taitianas.
No centro, a figura do homem que colhe uma fruta simboliza a tentação e a queda da humanidade.
Ao estruturar a pintura nesse sentido cronológico invertido, Gauguin parece sugerir o primitivo e o inocente como o único caminho verdadeiro a ser seguido pelo artista.

ARTE COMENTADA
Mulheres Tomando Banho em Dieppe foi pintada no período em que Gauguin morava em Dieppe, na costa do Canal da Mancha.
A obra foi exibida na 8ª Exposição Impressionista de 1886.
Sua composição, baseada em uma faixa horizontal e figuras simplificadas com contornos grossos, demonstra a crescente necessidade do artista de se distanciar do estilo impressionista predominante na época.

Les Alyscamps, também conhecida como As Três Graças no Templo de Vênus, é uma obra que se destaca.
Com suas massas justapostas e o estilo de "eclosão" da cor, esta pintura é característica do sintetismo de Gauguin.
As pinceladas, que guardam certa semelhança com o estilo de Cézanne, permitiram a ele transcrever o motivo sem se prender à imitação do mundo real.
Os tons altamente saturados empregados na tela são uma interpretação subjetiva e decorativa da paisagem.
É interessante notar que essa visão serena de Les Alyscamps contrasta fortemente com as composições contemporâneas, e muitas vezes atormentadas, que Van Gogh pintou do mesmo local.

O Retrato de Van Gogh é uma peça que gerou controvérsia.
A primeira impressão de Vincent, ao ver essa pintura de si mesmo, foi a de que Gauguin o havia retratado como um louco.
Mais tarde, ele suavizou sua visão em uma carta ao irmão Théo, escrevendo: "Meu rosto se iluminou muito desde então, mas era de fato eu, extremamente cansado e carregado de eletricidade como eu estava na época".

A Bela Angele foi uma pintura com um destino interessante.
A obra foi adquirida pelo renomado artista Edgar Degas em um leilão.
Esse leilão foi organizado pelo próprio Gauguin, com o objetivo de arrecadar fundos para financiar sua tão sonhada viagem ao Taiti.
A modelo para este retrato, que posa com um traje típico bretão, foi Marie-Angèlique Satre.

O Autorretrato com Halo é, sem dúvida, uma das pinturas mais importantes e radicais de Paul Gauguin.
Nela, o artista se representa com uma auréola, quase sem corpo, com apenas uma mão visível.
Uma cobra, um símbolo complexo, está inserida entre seus dedos, tudo flutuando em zonas amorfas de amarelo e vermelho.
Esses elementos da composição adicionam uma inflexão irônica e agressivamente ambivalente à obra.
A pintura nos apresenta sua percepção de superioridade artística, fazendo dele o precursor de um novo e audacioso olhar estético.

Ao chegar ao Taiti, em junho de 1891, Gauguin estava profundamente interessado em observar e entender a vegetação local.
A grande árvore mencionada no título desta pintura é, especificamente, a árvore hotu, que se destaca à esquerda da composição.
A obra é impregnada de cores intensas e oníricas, características marcantes do seu período taitiano.
A composição é altamente decorativa, organizada em torno de linhas curvas e exuberantes que transcendem o meramente topográfico, buscando uma representação mais simbólica e sensorial.

Em Paisagem do Taiti, Gauguin foi profundamente tocado pelo silêncio incomum e pela atmosfera de eternidade desse lugar paradisíaco.
A atmosfera pacífica invade a composição ampla, que surpreendentemente inclui poucos elementos, convidando à contemplação.
Sugerida pela presença de uma pequena figura solitária, as proporções da cena são imensas, ampliando a sensação de vastidão diante da luz e da profundidade.
As harmonias coloridas, a sucessão de curvas e a extensão das superfícies são elementos que caracterizam o estilo único de Gauguin neste período.


A composição de Mulher Taitiana e Duas Crianças evoca a imagem cristã da Virgem Maria com o Menino Jesus e o jovem São João Batista.
No entanto, aqui, o "filho mais velho" é presumivelmente a menina que se encontra no canto direito da tela, adaptando a iconografia.
É possível que o menino retratado no colo da mulher seja um dos filhos do próprio artista, nascido de sua amante taitiana Pahura.
O garoto recebeu o nome de Emil, em uma homenagem ao filho mais velho e legítimo de Gauguin.
A mulher mais velha na pintura pode, hipoteticamente, ser a avó materna do menino, um detalhe que adiciona profundidade familiar à cena.

As primeiras naturezas-mortas de Gauguin, incluindo arranjos de girassóis, foram pintadas na Bretanha entre 1888 e 1890.
Georges Wildenstein, ao comentar esta pintura, faz referência a uma carta de Gauguin a seu amigo, o escultor Daniel de Monfreid, datada de outubro de 1898.
Na carta, o artista pede sementes e bulbos para seu pequeno jardim no Taiti, mostrando seu envolvimento pessoal com a natureza.
Seu olhar de pintor ficou visivelmente encantado e inspirado por esses girassóis que ele mesmo cultivava.
Isso é evidenciado pelas quatro naturezas-mortas de girassol que Gauguin realizou em rápida sucessão no Taiti, no ano de 1901.
Para ele, cujos pensamentos sempre flutuavam entre o Taiti e a França, os girassóis sempre remetiam às lembranças de Van Gogh e à estadia conjunta em Arles, em 1888.

Gauguin se retratou inúmeras vezes ao longo de sua vida, explorando sua própria imagem e identidade.
Este, em particular, é seu último autorretrato, pintado no mesmo ano em que ele veio a falecer.
Junto à obra, ele deixou uma reflexão profunda: "A vida não passa de uma fração de segundo. Tão pouco tempo para se preparar para a eternidade!"

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